RESUMO DA 20ª EDIÇÃO DO PROGRAMA RADIOFÓNICO “CORRUPÇÃO É CRIME”


No dia 16 de Setembro, a Omunga no âmbito do projecto Corrupção é Crime, realizou a 20ª edição do programa radiofónico, onde abordou a temática sobre “O IMPACTO DOS PROGRAMAS DE COMBATE À POBREZA EM ANGOLA”

Em estúdio esteve Rodino Sapateiro, professor e activista social.

Em gesto de introdução para Rodino Sapateiro, a realidade do elevado índice de pobreza tem estado se agravando e principalmente nessa fase da covid-19.  Para se combater a pobreza, o elemento primordial é a estrutura governativa. Se esta máquina for funcional, os seus programas poderão funcionar, mas se não funcionar, tudo quanto se elaborar será levado em água abaixo.

Os governantes devem ser ricos moral e eticamente, não é o caso da nossa realidade. Tivemos muitos programas implementados ao nível do combate à fome e a pobreza, mas nenhum funcionou por falta de capacidade ética e moral dos nossos governantes. O que constatamos é que de ano a ano, mais angolanos vão entrando na linha da pobreza.

Questionado sobre o programa kwenda, Rodino salientou ser um programa fiasco, porque temos uma estrutura governativa muito centralizada, que ao implementar um programa, não pesquisa sobre as reais necessidades das famílias. “Entregar um valor às famílias sabendo que o custo de vida é mais elevado que aquela quantia, podemos dizer que estamos apenas a trabalhar para fazer relatórios”.

Actualmente constata-se um elevado número de crianças em trabalho infantis. Igualmente temos muitos jovens com idade de constituírem as suas famílias e que ainda dependem dos seus pais.

O nosso governo não tem compromisso moral com o seu povo, porque só se aproxima ao povo em épocas de eleições, com o objectivo de satisfazer os seus “orgasmos eleitorais”, depois de alcançarem a manutenção do poder, o povo é novamente esquecido e deixado à sua sorte.

As preocupações das populações não devem ser respondidas, mas sim atendidas, porque se o governo atender, então estará preparado para ultrapassar os problemas e não é isso que temos visto, o governo entrega alguns kits de trabalho e pensa que já resolveu o problema do povo.

Voltando ainda na temática do programa Kwenda o activista afirmou que desde sempre jamais concordou com o mesmo, porque se olhamos para a necessidade das famílias, o governo lhes fornece um valor inferior, numa fase em que os preços da cesta básica dispararam estrondosamente.

Exemplificou a realidade do bairro onde vive em que existem famílias que passam dias sem comer. Por isso na sua opinião o kwenda é um programa sem consistência que o governo devia rever imediatamente.

Sobre as possíveis soluções para sairmos da pobreza, devemos refletir na possibilidade de termos uma estrutura governativa composta por pessoas eticamente verticais, porque isso nos poderá ajudar a termos governantes mais transparentes, mais próximos das comunidades.

Em Angola infelizmente temos indicadores que nos dizem que as economias mundiais poderão crescer muito pouco, e isto significa que poderá haver alguma contração nos investimentos. Nós temos que descentralizar o nosso país para que os programas sejam concebidos de forma independente pensando na realidade das famílias.

Actualmente estamos a gastar tanto com a covid-19, que ainda não nos disseram quanto é que já foi usado.

O ouvinte Orlando Dala opinou que os programas de combate à pobreza dificilmente terão êxitos porque não são implementados por pessoas sérias. Se houvesse um projecto sério de combate à pobreza, muitos problemas como o da água, luz, saneamento básico já teria sido ultrapassados. A fome mata-se com a enxada na mão e quando um país não investe fortemente na agricultura, esses problemas jamais serão ultrapassados.

O internauta António Carlos escreveu: O activista está bem posicionado nos seus argumentos em aludir a extrema penúria que o povo angolano padece em toda dimensão. Fruto de governantes que somente olham para o povo quando se avizinham as eleições para manutenção do poder como eles próprios designam.

O ouvinte Felizardo Bonifácio opinou que todas as acções de combate à pobreza que o governo tem levado a cabo não vão resultar em nada, porque em vez de combater a probreza está a combater aos pobres, está a destruir os mercados levando ainda mais famílias para a pobreza.

Rodino Sapateiro, rebateu que devemos mudar a nossa forma de fazer política, porque no nosso país existe uma garante preocupação em garantir a manutenção do poder, enquanto que devíamos garantir a manutenção do bem estar do povo. Por isso é que o povo fica sempre na última instância. Temos o exemplo dos OGEs onde o maior bolo vai para o sector de defesa e segurança e o sector social que nesse momento é o mais importante, fica para trás.

Temos que mudar a nossa forma de fazer política no sentido de despartidarizar as instituições, nós temos um governo que só ouve aquilo que lhes convém, e todas as críticas são vistas como de opositores. Todos aqueles que falam a língua de quem governa, está somente protegendo os seus interesses pessoais.

Temos um conjunto de problemas que se não forem ultrapassados, teremos sempre este país que continuará na linha do fundo em termos de desenvolvimento.

Em muitos países existem subsídios para pobres, em Angola temos o Kwenda que está a ser implementado de uma forma que não vai de acordo às necessidades do povo. O governo deve contar com o apoio da sociedade civil no sentido de melhorar o seu sistema de governação.

O Ouvinte Lembuluka opinou que relativamente ao programa de combate à pobreza é muito comum vermos os nossos governantes com demonstração de falta de ética e interesse em resolver os problemas da população. Os programas do governo devem ser traduzidos nas línguas nativas das comunidades de formas a poderem entender melhor aquilo que o governo tem traçado para resolução de seus problemas. Quanto ao kwenda, o governo devia criar um gabinete de fiscalização para medir o resultado dos programas

O ouvinte Irmão Kikas escreveu: UM CONTRIBUTO: Estou de acordo com o convidado em estúdio quando diz a falta de consciência ÉTICA, MORAL e CÍVICA por parte dos servidores públicos é um factor que contribuiu para o empobrecimento das comunidades. A governação, em Angola, é marcada por uma série de práticas de corrupção e de peculato, que levaram as famílias, que compõem o maior tecido social do país, a um nível de vida extremamente crítico.

O peculato enriqueceu ilegalmente servidores públicos, os Generais tornaram-se sinónimos de “comerciantes, através da corrupção”.

O peculato elevou o índice de jovens desempregados; por conseguinte, aumentou a delinquência juvenil. O peculato levou a insuficiências de medicamentos em hospitais públicos. Logo, aumentou a taxa de mortalidade. O peculato deixou escolas com aulas ao relento e com carteiras de lata e pedra. Com efeito, diminuiu a qualidade da educação. O peculato fracassou projectos de água para todos, por isso matou gado no Sul, sobretudo no Cunene. O peculato levou o governo actual ao aumento da dívida pública, bem como a implementação forçada do imposto de valor acrescentado aos 14% (IVA), o que aumentou o custo da cesta básica, agravando mais o nível de pobreza das famílias.

As consequências do peculato têm repercussões nefastas multissetoriais, e na base de suas causas está implícito um problema de consciência ética, moral e cívica por parte dos servidores públicos.

O ouvinte Abílio Múvia  escreveu: Primeiro quero parabenizar o Rodino Sapateiro pelas suas abordagens, primeiro é importante saber que a fome e a pobreza não se combate com decretos, mas sim a concretização das políticas traçadas, pra além das formas ditas pelo convidado, eu acrescento o Amor, é importante que os nossos dirigentes tenham amor ao próximo, porque aquele que tem amor ao próximo, àquele que sente a dor do outro, esse sim consegue resolver os problemas dos cidadãos… Porque não importa nós elaborarmos muitos decretos e ter muitos programas, enquanto esses mesmos programas não se referirem na vida do cidadão, no ponto de vista prático… Podemos até ter um Governo descentralizado mas se o amor não reinar entre os homens, pra nada serve aquele governo… Todos os sistemas de governo são bons desde que se reflita na vida do cidadão

Voltando ao Painel, Rodino sapateiro apelou pela mudança de comportamento dos nossos gestores públicos no sentido de trabalharem de forma patriótica para o bem na nossa nação. Muitas vezes aqueles que se levantam para repudiar as práticas dos nossos governantes são chamados de frustrados, mas aqueles que os chamam assim também passam por inúmeras dificuldades. Os cidadãos devem cultivar o hábito de pressionar os nossos governantes para resolução dos problemas das populações.

Os nossos governantes fazem muitos discursos bonitos pensando que esses discursos é que vão resolver os problemas das populações. Não são os discursos que vão acabar com a fome e a pobreza em Angola, precisamos de governantes com atitude para fazer a mudança acontecer, os nossos governantes devem ser pessoas com atitudes e engajamento pela melhoria do bem estar das populações.

Temos os conselhos de auscultação nas administrações municipais, e temos vistos que aquelas pessoas críticas ao regime não são tidas nem achadas nesses conselhos.

Rodino concluiu dizendo que são as práticas do nosso governo que contribuíram para ao aumento da pobreza em angola, e como cidadãos devemos nos unir no sentido de acabarmos com esse mal.

O Debate Radiofónico sobre a Corrupção é realizado quinzenalmente a partir das 8h30 na rádio Ecclésia de Benguela e conta com o apoio da Misereor.

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